Intuição – Quem decide sua vida? O cérebro ou o coração?


*Entrevista com Otávio Reis – Pesquisador, coach e terapeuta:

Todo ser humano já passou por momentos difíceis em sua vida. Todos conhecemos tanto as alegrias, o amor quanto as tristezas, frustrações, medos e culpas. Escolhemos nossos caminhos e esses caminhos nos trazem vivências que são acompanhadas de emoções. Como dizem, “a vida é feita de escolhas”, mas cada um escolhe de um jeito. Existem pessoas que seguem as emoções, outras são mais racionais e outras ainda são intuitivas.

O que você poderia nos dizer sobre isso? Quem deveríamos escutar? O cérebro ou o coração?

Enquanto terapeuta e pesquisador me deparei inúmeras vezes com o grande debate sobre seguir a razão ou o coração. Até então esse debate parecia ser apenas uma expressão popular, já que a ciência apontava apenas o cérebro como responsável pelas respostas emocionais. Mas recentemente a ciência fez novas descobertas que nos permitem olhar esse debate com outros olhos e também compreender como melhor aplicar essas descobertas de maneira prática em nossas vidas. Considerando as novas descobertas, a resposta para a pergunta acima é que a união faz a força. Cérebro e coração trabalham juntos fazendo com que a intuição esteja presente trazendo consigo equilíbrio emocional e clareza racional. Esse equilíbrio é essencial em nosso processo de criação da realidade. Afinal somos cocriadores de nossa realidade e não apenas observadores.

E o que isso quer dizer? Que criamos nossa própria realidade? 

Nossa ciência trabalha hoje com a concepção de que o universo é holográfico, um fractal. Os hologramas possuem uma característica única: cada parte deles possui a informação do todo (“distributividade”). Um fractal é um objeto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objeto original. Em resumo, cada partícula do universo contém em si as informações do todo. Segundo as crenças de cada um dizemos que somos filhos de uma força maior, seja ela chamada de Deus, Vida, Natureza, Universo. E o que é ser filho? Todo filho recebe características inerentes ao pai. Um bebê por exemplo tem metade do seu DNA proveniente do pai e a outra metade da mãe. E as combinações desse código genético, dos campos eletromagnéticos geram a vida que faz com que esse filho tenha características do pai, da mãe e algo mais. Em outras palavras, sendo filha de um universo holográfico, cada consciência é um fractal do todo. Transpondo, com um certo toque de humor, essa mesma idéia para a noção de Deus, se filho de peixe, peixinho é, logo filho de Deus, Deusinho é. Ou seja, todos têm uma centelha divina e seriam cocriadores da realidade. Mas isso não seria novidade, já que diversas experiências da física quântica (como por exemplo a experiência da dupla fenda) nos demonstram que não somos apenas observadores da realidade, mas também criadores desta. Em outras palavras, nosso olhar sobre as coisas e sobre a vida define também como elas se apresentarão nas cenas de nosso cotidiano. O lado bom disso é que tudo pode ser revertido por nós mesmos, desde que consigamos mudar em nosso coração o prisma de perspectiva do olhar que portamos sobre nós mesmos. Cabe aqui uma citação do psicólogo Gasparetto que diz que “o mundo te tratará como você trata a si mesmo”.

Considerando que somos criadores de nossa própria realidade, como isso acontece? Qual é o processo prático? 

Através de nossos pensamentos e sentimentos. Pesquisas atuais já nos fornecem indícios de como o coração tanto fisicamente quanto energeticamente possui um papel extraordinário em nossas vidas. A antiga concepção científica assumia que nossas respostas emocionais viriam unicamente do cérebro. E portanto na sabedoria popular, associamos os sentimentos ao coração. Hoje em dia a medicina ocidental fez avanços que trazem novos pontos de vista a esse respeito. Pontos de vista estes que já vem sendo abordados pela medicina chinesa e abordagens mais alternativas como a Nova Medicina Germânica e o Bioalinhamento. Para compreender melhor tudo isso, darei uma breve explicação sobre o funcionamento do cérebro e do coração.

O córtex cerebral é dividido em dois hemisférios, direito e esquerdo, que possuem distinção funcional entre eles e cooperam entre si de maneira complementar. O hemisfério direito é mais holístico, intuitivo e espacial. Já o hemisfério esquerdo é mais racional, lógico, analítico e linguístico e processa tudo de maneira serial.

Até bem pouco tempo atrás pensava-se que o cérebro desempenhava suas funções de maneira independente e que nosso coração servia apenas para bombear o sangue. Mas para nossa surpresa, estudos recentes feitos pelo professor Ph.D. da Florida Atlantic University e também diretor de pesquisas do Instituto HearthMath Rollin McCraty demonstram que existe um 2º cérebro:

O Coração :
Pesquisas recentes indicam que nossas respostas emocionais não viriam somente do cérebro, mas que o coração e o corpo também estão engajados nos processamentos das emoções. O coração possui seu próprio sistema nervoso independente com mais de 40.000 neurônios e uma rede complexa de neurotransmissores. É como se existisse um outro pequeno cérebro dentro do coração.


Existe uma comunicação entre o cérebro e o coração. Você sabia por exemplo que no estágio de desenvolvimento fetal o coração começa a bater antes mesmo que o cérebro comece a se desenvolver?  As ondas cerebrais de uma mãe conseguem sincronizar os batimentos cardíacos de seu bebê recém-nascido mesmo se ele estiver separado de alguns metros de distância.

O coração comunica-se com o cérebro e o corpo de quatro maneiras:

1. Comunicação neurológica (através do sistema nervoso)
O coração é o único órgão que usa o sistema nervoso e os neurotransmissores de maneira a enviar mais informações para o cérebro do que receber deste último. Este processo inibe e ativa diferentes áreas do cérebro de acordo com as circunstâncias emocionais.

2. Comunicação energética (através de campos eletromagnéticos)
O campo magnético do coração é 5.000 vezes maior que o do cérebro, enquanto a carga elétrica do coração é 60 vezes maior que a do cérebro. O coração impacta cada célula do nosso corpo e cria um campo magnético que pode ser lido com aparelhos apropriados a mais de um metro de distância interagindo também no meio ao seu redor. Sendo assim o cérebro e o coração não se comunicam somente um com o outro, mas também com o corpo e com o mundo a sua volta. Segundo o estado emocional vivido, o coração varia seu campo eletromagnético.

3. Comunicação biofísica (através de ondas de pulsação)
Alterações emocionais produzem pequenas variações em nosso ritmo cardíaco. Quando isso acontece, o coração envia sinais para nosso cérebro que afetam a habilidade de nosso cérebro de processar informações. É por isso que quando não estamos bem emocionalmente falamos também que nossa cabeça não está boa, que está confusa. Sentimentos positivos como amor, confiança, segurança criam ritmos cardíacos regulares, enquanto sentimentos negativos como raiva, frustração, medo criam ritmos cardíacos irregulares levando ao caos nosso sistema nervoso. Em resumo, o coração influencia nossa maneira de pensar.

4. Comunicação bioquímica (através dos hormônios)
O fator natriurético atrial (ANF) é produzido no coração e garante o equilíbrio geral do corpo impactando a homeostase, inibindo a produção de corticoides (hormônio do stress) e incentivando a produção de ocitocina (hormônio do amor).

Segundo a pesquisadora Anne Marquier “o amor do coração não é uma emoção, é um estado de consciência inteligente”.  Eu considero esse estado de consciência o verdadeiro discernimento, aquele que não passa pela razão e pelo simples processamento de registros e significados de vivências do passado. Enquanto o córtex cerebral trabalha a razão, classificando, comparando e polarizando tudo numa dualidade de certo e errado, o coração vai muito além disso. Este órgão ativa no cérebro centros superiores de percepção que interpretam a realidade sem se apoiar nas experiências passadas. Esse novo circuito desconsidera as velhas memórias trazendo através desse novo discernimento um conhecimento imediato, instantâneo e uma percepção mais exata da realidade descontaminada de julgamentos e experiências passadas.

Não seria esse discernimento imediato a chamada intuição? Como desenvolver então a intuição?

Escutar o coração não é escutar suas carências, emoções e vazios advindos do ego, posto que focar no vazio gerará mais vazio em sua vida. Escutar o coração é um discernimento, uma inteligência superior que se ativa por sentimentos positivos e traz uma coerência biológica, bem estar quando observamos nossos pensamentos e emoções com neutralidade sem julgá-los. É confiar na própria intuição e perceber que o mundo à nossa volta é uma projeção daquilo que cultivamos em nosso mundo interior.

A intuição nos permite encontrar mais facilmente nosso caminho de vida ou nosso lugar no mundo. Quando encontramos nosso lugar, os pesos e incômodos desaparecem. Você achou o seu lugar e ali você não está vulnerável e também não precisa vulnerabilizar o outro.

Nossas sensações e estímulos, como por exemplo os emocionais e sexuais são o combustível que alimenta de maneira eletromagnética um campo energético que se expande no coração e que é direcionado quando existe equilíbrio nas frequências de nossos dois hemisférios cerebrais. A presença e a neutralidade permitem ao coração se exprimir de maneira que possamos escutá-lo já que ele assume a responsabilidade do discernimento deixando para segundo plano o processamento racional do córtex cerebral, que apenas se baseia em memórias e experiências do passado. O cérebro sozinho nos faz ficar presos aos valores do passado de certo e errado, enquanto o coração nos abre novas possibilidades. Aquele que escutamos define nosso olhar sobre as situações e de certa maneira determina como o mundo irá projetar suas reações sobre nós.

É possível se guiar pelo sexto sentido. Podemos confiar nele, mas precisamos primeiro desenvolver nossa capacidade de escutar o coração, deixando que ele tenha voz, pois a maioria de nós é prisioneiro da sensação ilusória de controle do racional. Quanto menos presos ao julgamento racional, mais fácil desenvolver presença e empatia. Estar presente é observar a realidade sem julgá-la e polarizá-la em certo ou errado. Empatia é se colocar no lugar do outro sem julgá-lo, tentando perceber o mundo da maneira que ele percebe, sentindo o que ele sente. A leitura do discernimento do coração é simples e acessível a todos, posto que diante de toda situação sentimos nosso coração se preencher ou se esvaziar. A sensação de vazio ou de plenitude nos fornece indícios qualitativos do que estamos vivenciando e em que polaridade estamos focando: negativa ou positiva. Estejamos atentos a essas sensações. Existem também processos de coaching e de terapias que auxiliam no desenvolvimento desse equilíbrio entre razão e intuição. É algo que pode ser trabalhado de maneira bem palpável e concreta.

Não somos apenas observadores da realidade. Perceba e construa a sua com consciência!

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